terça-feira, 21 de julho de 2015

Charlene

Boom. Explodiu.
Meu coração se partiu.
Mas não foi de amor.

- Que se passa doutor?
- O estado é grave!
- Mas não era laico?
Faço prece pro Senhor.
Rezo, oro, faço oferenda.
- Em algumas horas acaba a cirurgia.
Teve hemorragia!
- Nossa senhora de todos senhores!
Aperta o peito.
O peito aperta.
Aperta o dente.
Aperta os olhos.
-Vai nascer!!!
Grita, chora, reclama...
Rola na cama.
Arranha, bate, soca...
- Silêncio!!!
Exclama...
-É menino! É menino!
Gritou a madrinha.
No teto, a luz.
Nos olhos a dor.
- Como ela tá seu doutor?
- Vai ficar bem!
A janela está aberta
São 13h da tarde.
O vento entra
Seu corpo está no chão.
- Ai menino jesus!
Grita a madrinha.
A sala está vazia.
Entra a enfermeira.
- Charlene, você está bem?
Escorre a lágrima.
- Como ela está seu doutor?
- Vai ficar bem.
Olhar distante pela janela.
- Minha filha, Deus te ilumine!
E o que era ruim ficou pior.
- A Charlene tá grávida?
- Não usou camisinha!
- Nossa! Como é novinha...
Na delegacia
- Qual sua idade?
- 16 anos.
Na rua, todos conheciam o Júnior.
- Aquele menino não presta!
Charlene apaixonada.
Chega visita no seu leito.
- Minha filha, como tá abatida!
Charlene no chão.
É só mais um corpo.
- Mas porque não se protegeu?
- Ela provocou!
- Tava pedindo!
- Puta!
Na polícia, a agressão.
- Menina direita não usa essa roupa.
- Você não viu que era um marginal?
Chora o neném.
Chora a alma da Charlene.
- Vai tomar esse remédio pra fortalecer.
Disse o doutor.
- Qual o nome do menino?
- Jorge, igual ao santo.
Responde a madrinha.
- Qual o nome do suspeito?
- Júnior.
 Responde a Charlene.
5 dias e volta pra casa.
- A Charlene não dá de mamar!
Reclama a madrinha.
Nas ruas, o olhar da vizinhança!
- Jajá nasce, né Charlene?
Pergunta dona Jurema.
Charlene balança a cabeça.
- Venha para nossa igreja, Charlene.
- Jesus vai te curar!!!
- Jesus vai te curar!!!
Mas o estado é laico ...
Domingo, meio dia.
- Charlene, tem visita!
Grita a madrinha.
- É o Júnior.
Charlene pula.
Perfume, batom, argolas ...
- Chamei os irmãos pra jantar!
Diz a madrinha.
- Eu te amo.
- Eu também.
- Você precisa provar!
- Quantos anos você tem, Júnior?
Pergunta a madrinha.
- 23.
A porta abre.
- Chegou a visita!
- Vou fazer a feira, volto já!
Domingo à noite, o culto começa.
- Depois nós vamos jantar!
Charlene recua.
- Não estou pronta!
Na janta, uma canja.
- Charlene, venha comer!
O neném chora.
- Essa canja é uma delícia!
- Você precisa provar!
Júnior insiste.
- Deixa eu entrar!
- Não posso, jajá chega a madrinha.
- É rapidinho.
Charlene no chão.
- Agora vamos orar!
Charlene no chão.
- Pai nosso que estás no céu...
Júnior convence.
- Santificado seja o vosso nome ...
Júnior insiste.
- Venha a nós o vosso reino...
Abre a porta.
- Seja feita a vossa vontade...
Júnior empurra.
- Assim na terra, como nos céus...
Charlene grita.
- O pão nosso de cada dia nos dai hoje...
Júnior a cala.
- Perdoai nossas ofensas ...
Charlene arranha.
- Assim como nós perdoamos aqueles que nos ofendem ...
Charlene chora, esperneia.
- Não nos deixais cair em tentação...
Charlene no chão.
- Charlene, me dê esse facão.
Pede a madrinha.
- Hoje o jantar vai ser canja!
Pensa a Charlene.
- Minha filha, lave essa louça.
Charlene pensando.
- Teve hemorragia!!
Diz o doutor.
Chora o neném.
- Charlene, minha filha.
Dispara a madrinha.
Ajuda! Ajuda!
Charlene no chão.
- O que aconteceu?
Charlene morreu.
- O que aconteceu?
O júnior matou.
- Ela vivia tristinha, a pobrezinha.
O horror da vizinhança.
- Coitada dessa criança.
- Filho de estuprador!
Charlene no chão.
Acompanhada de um facão.
- Ai meu jesus!
- A Charlene morreu.
Um culto pra Charlene.
- Jesus vai te curar!!!
A madrinha lamenta...
- Ela lavou a louça!
Charlene não suportou.
- A Charlene abortou?
- É menino! É menino!
Grita a madrinha.
Mas o estado é laico.
- Charlene não dá de mamar!
Chora o neném.
Chora a Charlene.
Chora a madrinha.

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