Desde o começo da minha adolescência, desenvolvi um corpo "adulto" muito cedo. Aos 13 anos já tinha quadril largo, seios relativamente grandes, coxas grossas. Desde muito cedo fui hipersexualizada, vista pelos olhos dos homens de dentro e de fora da família como objeto de desejo. Não percebia esse corpo, não sentia que era parte de mim. Uma vez, no início ainda da formação deste corpo, fui violada. Um estranho na rua em que morava pegou em um dos meus seios. Senti nojo, repulsa. Meu seio queimava e a vontade que eu tinha era de arranca-lo fora. Arrancar meus seios. Foi a primeira vez que senti que minhas curvas ainda que em formação eram motivo para dor e violação. Logo, os meninos da minha idade também começaram a reparar em mim. E os mais velhos também. Meu primeiro envolvimento amoroso foi com um cara de 30 anos. Eu tinha apenas 14. Não cheguei a ter contato físico com o mesmo pois algo em mim sabia que tinha algo errado. E mesmo sem ter muito conhecimento nem orientação dos meus familiares cheguei a conclusão de que o que ele queria comigo se caracterizava como pedofilia. E eu falei isso diretamente para ele.
Quando cheguei aos meus 16 anos meu corpo já estava totalmente formado. E foi quando comecei a me sentir verdadeiramente bonita. Era o auge do facebook e eu fazia questão de postar fotos e fotos e me expor. Adorava toda atenção que ganhava dos homens principalmente. Já tinha quase que superado o medo deles que um trauma de infância havia me causado. Nunca percebia que estar dentro dos padrões e com tão pouca idade fazia com que toda essa atenção que os homens me davam se resumisse a interesse sexual. Eu era um rosto, um corpo. Não tinha muita idéia de que as pessoas são bem mais que isso. Mas sabia que me manter nos padrões era necessário. Sabia tanto que era alienada. Não saia de casa sem uma maquiagem, sem alisar meu cabelo na chapinha. Não suportava a ideia de engordar.
Durante esse período, entre 16 e 21 anos tive diversas relações. Muitos admiradores, homens apaixonados, facilmente arrumava namorados. Era querida por todos, recebia elogios com muita frequência. Era admirada por homens e mulheres. Nunca entendi bem essa admiração. Na verdade eu não fui criada para ser exibicionista. Nunca me achei melhor que ninguém. Mesmo assim era tratada com certa importância. Curti o que tinha para curtir e aos 21 comecei um relacionamento longo. Demorei a me apaixonar (pois na verdade sempre fui meio difícil de envolver sentimentos, devido a outros traumas) mas o fiz. Me apaixonei. Foi a primeira vez. Me envolvi profundamente. Me doei inteiramente. Infelizmente ao mesmo tempo que coisas maravilhosas me aconteceram até o ano de 2014, 2015 foi a queda. Tudo aconteceu. Problemas de família e outros mais que me deixaram mal. Foi quando desenvolvi ansiedade. Veio a baixa na libido, o ganho rápido de peso e todos problemas que uma doença psicológica acarreta. Engordei muitos quilos e fiquei fora dos padrões. Já não satisfazia sexualmente meu parceiro e ainda de quebra estava psicótica, paranóica. Eu adoeci e não conseguia enxergar. Nem ele.
Em 2016 ele terminou o namoro. O que será que motivou? Será que o fato de ter engordado, adoecido psicologicamente e ter perdido a vaidade e libido não interferiram nisso? Hoje fazem 4 anos que estou "solteira". Nesse meio tempo, engordei mais. Ainda tenho ansiedade e os motivos que causaram ela não foram resolvidos ainda. Tive alguns relacionamentos, curtos, rápidos. Ninguém que me envolvi nesses últimos 4 anos me assumiu totalmente. Ao contrário só pioraram meus transtornos. Depois que engordei mais, o interesse das pessoas sumiu mais ainda. Me descobri bissexual e nessa descoberta ainda cheguei a descobrir algumas pessoas (mulheres como eu) que não se importavam com meu tamanho ou aparência. Mesmo assim, hoje em dia recebo muito mais convites para transar do que para namorar/ter um relacionamento sério. Claro que sempre fui adepta da liberdade, gosto muito de ser livre e de todo comodismo que a mesma trás. Passei por relacionamentos que me desgastaram demais para me preocupar em quebrar a cabeça com alguém. Mas essa mudança na forma como as pessoas me veem e me tratam me faz refletir. Hoje peso 100kg. Sim, cheguei aos 100kg. Graças a Deus a cabeça que tenho hoje é muito diferente da cabeça que tinha na adolescência. Graças ao universo descobri o feminismo e me descobri para além do meu corpo. Ainda é um caminho difícil. Ainda me pego lidando com a rejeição que é ser fora dos padrões. Ainda me dói a gordofobia dentro e fora de casa. E ainda reflito sobre minha liberdade sexual e como de certa forma acabo me expondo a pessoas que só me veem como objeto de prazer e ainda me culpam por isso. Eu fui padrão, sei como é. Sei o privilégio que é. Me questiono se um dia eu voltar a ser esse padrão como será minha visão de com quem devo me relacionar. Como escolher alguém que goste de mim para além do meu corpo? A solidão da mulher gorda é muito cruel. Essa é uma reflexão de uma mulher gorda que já foi 100% padrão mas que ainda assim é branca e privilegiada. Imagino como não é a solidão da mulher gorda que possui outras características que as deixam por fora do padrão.
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