terça-feira, 30 de junho de 2020

A casa

Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada - por fora era velha e por dentro, arcaica. Digna de um forno de lixo. O reboco despedaçava. As paredes eram rachadas. O piso era quebrado. As portas eram furadas. Maçanetas eram quebradas e as chaves não abriam nada. As telhas tinham goteiras e o telhado não era forrado. A água infiltrava por todo lado. Os móveis caiam aos pedaços. 

Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão - as pessoas que moravam nela beiravam o solo. Tinham profundidade mas sem nada que as pudesse firmar. Não havia ordem ou desordem - apenas ideias soltas, sonhos quebrados e mesquinharia. Faltavam empatia, sobrava ego inflado e nariz arrebitado.

Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede - as realidades se chocavam e se lançavam para bem longe uma da outra. A transparência era como a de um cristal. Tudo se via. Tudo se escondia. Era percebido e ignorado. Era perceptível e também não valia a mínima atenção. Ninguém se olhava, ninguém se via. Se olhava, não sentia.

Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha ali - as noções básicas de higiene não faziam muito sentido ali dentro. A harmonia era quebrada por escarros, cabelos, restos de comida que fazia a festa de baratas e formigas. As paredes tinham manchas de dedos e os banheiros eram sujos de fezes e urina. Era o ambiente favorito das moscas e das pragas no geral. Nem as plantas escapavam da desgraça. Nem as cores apareciam diante de tanta fumaça, poeira, lama. Até o brilho do olhar se ofuscava. 

Mas era feita com muito esmero na rua dos bobos, número zero - o que mais pesava então nem chegava a ser o barro que caia das paredes quebradas ou as manchas de mofo causadas por tantas escarradas: o que pesava mais que tudo era a nuvem de energias negativas a obsessão por derrotas e coisas mal sucedidas. Planos tantos planos e toda negatividade eram mais tóxicos que o chorume que escorria das latas de lixo a tanto tempo sem serem trocadas.

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