Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão - as pessoas que moravam nela beiravam o solo. Tinham profundidade mas sem nada que as pudesse firmar. Não havia ordem ou desordem - apenas ideias soltas, sonhos quebrados e mesquinharia. Faltavam empatia, sobrava ego inflado e nariz arrebitado.
Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede - as realidades se chocavam e se lançavam para bem longe uma da outra. A transparência era como a de um cristal. Tudo se via. Tudo se escondia. Era percebido e ignorado. Era perceptível e também não valia a mínima atenção. Ninguém se olhava, ninguém se via. Se olhava, não sentia.
Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha ali - as noções básicas de higiene não faziam muito sentido ali dentro. A harmonia era quebrada por escarros, cabelos, restos de comida que fazia a festa de baratas e formigas. As paredes tinham manchas de dedos e os banheiros eram sujos de fezes e urina. Era o ambiente favorito das moscas e das pragas no geral. Nem as plantas escapavam da desgraça. Nem as cores apareciam diante de tanta fumaça, poeira, lama. Até o brilho do olhar se ofuscava.
Mas era feita com muito esmero na rua dos bobos, número zero - o que mais pesava então nem chegava a ser o barro que caia das paredes quebradas ou as manchas de mofo causadas por tantas escarradas: o que pesava mais que tudo era a nuvem de energias negativas a obsessão por derrotas e coisas mal sucedidas. Planos tantos planos e toda negatividade eram mais tóxicos que o chorume que escorria das latas de lixo a tanto tempo sem serem trocadas.
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