domingo, 23 de fevereiro de 2020

Parto de mim


                        Eram 5:30h da manhã  e o céu já estava claro num tom alaranjado. Não sei se fazia frio ou calor. Eu olhava a casa, a rua mas, havia um véu quase transparente em meus olhos. Meu corpo se cobria de uma euforia que não era derivada de bons presságios. Ele se rebatia em espasmos moderados de maneira involuntária, tremendo de uma agonia que só a dor física aliada ao desespero e ao medo podem provocar. Do alto da minha testa escorriam gotas frescas do suor composto de nervoso e incerteza. 

Numa mastigação simples, podemos exercer uma força de até 30kg sobre nossos dentes. Várias vezes ao dia fazendo o mesmo movimento de maneira mais suave ou bruta. Nossa arcada dentária é digna de ser chamada armadura. Suportando as batalhas da mastigação diária. Um dente - massa ossea brilhante - chega a ser tão delicado em sua aparência tal como uma jóia. Minha mãe sempre dizia que nossos dentes são como pedras preciosas. " Cuide bem deles, minha filha!" ela dizia. Nunca explicou como fazia. Agora adulta, sinto o peso que possui o mastigar. 

Na cozinha, imóvel, ela olhava pela janela. Esperava desde às 00h o amanhecer e raiar do sol com uma certa pressa. "De 12h em 12h" disse o doutor. Às 6h já era hora de tomar mais uma pílula mágica. Na caixa diz "uso sob prescrição médica". Mas foi o médico quem prescreveu. Foi ele mesmo quem falou "para tais sintomas não necessita exame". Infecção urinária não falha. Pesa um pouco a consciência saber que induzi o doutor a cometer um desvio em sua receita. Oras, infecção dentária se dá na boca, não na genitália. Seria eu a doutora que prescreveu a própria cura? Toda ensaiada, ainda joga um verde "mal consigo curtir o carnaval". Quase peco. " Mas por qual motivo?" pergunta o doutor. "Incomoda ir tantas vezes ao banheiro por quase nada...".



Já não suportava a espera. Lhe doía muito. Era forte o latejo. Não podia dormir com tamanha pulsação em sua cabeça. Os olhos hora atentos, hora cansados já começavam a deixar turva a visão. A nascente do rio da alma estava pronta para escoar. Não aguentou mais a espera e como médica de si, tomou a pílula antes da hora prevista. " Alguns minutos não devem fazer tanta diferença". Na pia da cozinha: cravo, chaleira e xícaras espalhadas denunciavam a longa noite de tentativas falhas de aliviar seu sofrimento questionável. Afinal, teria sido uma escolha? 

Engoli a pílula com dificuldade mas com a certeza da melhora mágica. Passou seca pela garganta. Esperei alguns minutos para começar a sentir seu efeito. Exausta, me deito mais uma vez em meu leito. Tantas vezes o havia feito na madrugada Deitava e em seguida levantava. Quase virei fração no tempo.  "Agora vou conseguir descansar" pensava. Pobre eu. Iludida pela magia lenta. Ao menor fechar de olhos, uma dor latejante. Batia em minha face como um desconhecido bate em uma porta qualquer em procura de abrigo para se salvar. Mal pude acreditar que a pílula mágica não havia funcionado ainda. "Mas é a segunda dose de dez" pensei. O efeito já deveria ser notado. Foi então que a dor parecia intensificar e na hora do desespero me rendi ao meu chamado interno e abri os olhos para a realidade. Não ia passar tão rápido. Na tentativa de solucionar o problema, resolvi olhar diretamente para ele. 

Uma jóia quando quebrada não é fácil de consertar. Não a confiamos para qualquer um, nem todo mundo sabe manusear. Muitas vezes as guardamos na esperança que alguém apareça um dia e possua as habilidades necessárias para as fazer inteiras novamente. As vezes um cristal se quebra em mil pedaços e guardamos alguns pedacinhos tais como pequenas lembranças do que um dia foi inteiro. Cada pedaço trás consigo a dor de lembrar no cristal inteiro. Tão límpido e brilhante. Essas lembranças acabam se tornando tóxicas. Começamos a lamentar. Esses pedacinhos ficam cravados em mim e dói senti-los ali. Me adoece e me faz chorar. Eu não consigo me livrar deles. E enquanto muitos ficam esquecidos junto ao lodo e mofo do passar dos dias, a única esperança que sobra é de poder ocupar seus lugares quase vazios com belas gemas acrílicas. 

Toda cirurgia - grande ou pequena - deve ser executada por um profissional formado e capacitado. E deve ser feito o manuseio correto e responsável do material necessário para sua realização. Bem, além de médica também sou cirurgiã. "Alicate, pinça, álcool e algodão". Até que não é muito difícil brincar de médico hoje em dia. O problema são os riscos e os outros. Mas eu já estava dominando a arte de errar. Havia errado algumas vezes. Estava prestes a errar mais uma vez. Mas, e daí? Era melhor assim do que revelar ao mundo minhas habilidades secretas com o bisturi. Era cobaia de mim mesma. Assim mesmo, com redundância. Começa o processo cirúrgico. Aos poucos observo onde estava quebrado o meu cristal. Percebi que uma lamina fina atravessava minha carne. Era o ponto fatal. Estava grudada em minhas entranhas tal como um bebê que não nasce de parto normal. Não queria me abandonar. E a cada puxão-empurrão-cutucão era uma lágrima, uma gota de sangue, um gemido. Sentada na mesa de cirurgia, a paciente tremia e suava frio. A cirurgiã se viu contaminada com o mesmo sentimento. Implorava em silêncio pelo fim do procedimento. Confiante de seu papel, a cirurgiã seguiu firme e forte neste "parto". Alguns cortes foram necessários afinal, se tratava de uma cesária. A espada foi removida da terra. Havia uma nova rainha. O sangue representava  a vida que a espada acabara de deixar. Uma onda gelada e salgada cobriu as marcas deixadas e levou embora o que poderia ter ficado lá. A dor ainda era presente porém a paciente e a cirurgiã se encontravam satisfeitas com o serviço findado. Foi quando finalmente a pílula mágica resolveu surtir o efeito esperado e os ânimos se acalmaram. O merecido descanso chegou sereno e mesmo com raios de sol, se fez praiano numa rede com brisa de mar. 

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