Eu não me permito amar. Desacreditei do amor faz algum tempo. Quase que uma punição que criei para mim mesma por ter sofrido antes. Quase que uma culpa que carrego por ter falhado tão feio em encontrar alguém que me amasse verdadeiramente. E ao passar dos anos, mesmo com encantamentos e pessoas que me despertaram interesse, nada foi realmente forte para chamar de amor. E assim decidi ficar sozinha. Desconstruí a idéia de que preciso de um par romântico para ser feliz. Engatei no pensamento libertino de viver só porém, sempre acompanhada, o que também não funcionou. As relações razas me envenenaram.
Estou prestes a fazer 30 anos. Pra muitos, ainda jovem. Pra outros tantos, o início de uma fase mais madura. Muitas vezes sinto que vivi por séculos. Outras tantas me sinto como criança. Não vivi tudo mas vivi muito, muito mais que talvez você que tenha parado pra ler isso. Também deixei de viver muito mais por me prender a preocupações até compreensíveis porém nunca aceitáveis. Não me arrependo mas sinto que perdi muito. Entretanto me conformo com a ideia de que nem tudo está perdido e que ainda posso fazer muito. Muito por mim, por quem eu amo. A vida me deu mais uma chance e apesar dos desequilibrios mentais estou tentando segura-la. Mas a que coisas me devo permitir experienciar ?
A vida que levo não é das melhores. Muitos invejam, outros repudiam mas a realidade é que ninguém sabe das dores e sabores que é levar uma vida secreta - ou quase. Viver com o medo de que um dia descubram que sou a mulher maravilha mas que não estou aqui pra salvar o mundo. Não o mundo deles. Meu disfarce é para salvar meu mundo. Só que nos últimos acontecimentos desta série, a protagonista encontrou o que parece ser uma espécie de kriptonita. Seria esse o seu fim?
Talvez essa seja mais uma permissão que eu me devo. Que neguei por tanto tempo. Me sinto perdida, vulnerável, fraca. Não são sentimentos novos, não mesmo. Só que agora eles tem um motivo que sempre me fez sentir repulsa de certa forma: a paixão. Finalmente está protagonista encontrou seu par? Ainda é cedo pra afirmar. Pode ser só mais um obstáculo. Mas foram tantos anos de abstinência e total jejum de sentimentos que me encontro como uma gatinha abandonada e prenha que aceita qualquer migalha de carinho de um estranho só pra garantir um lugar seguro e quentinho para fazer morada. É patético que sempre gostei das canções de amor mas agora de alguma forma elas fazem sentido. E não deveriam?
Toda essa situação me pegou de surpresa em um momento que ainda é de transformação. Eu ainda estou no clichê que é o processo do amor próprio. Algumas cicatrizes ainda doem e me fazem lembrar como eu já me machuquei caindo em situação parecida. Este órgão imundo que acelera e bate dentro de minhas costelas tenta incansavelmente alimentar alguma esperança de que sim, dessa vez pode dar certo. Já é, inclusive possível notar os efeitos colaterais que este elemento tem feito agir em meu comportamento: fala mansa e abobada, olhos brilhando, total submissão e devoção, tentativas patéticas de agradar o ser desejado e o pior de todos - o medo de não ser suficiente. O medo de qualquer defeito, qualquer imperfeição fazer com que o indivíduo em questão desista de ficar perto, de contribuir com essa paixonite inusitada.
Nunca pensei que no auge dos meus 30 anos me encontraría em tal situação. Talvez eu esteja me enganando. Talvez esteja apenas encantada com seus longos cabelos negros ou com seu portunhol. Talvez seja admiração profunda pelo seu intelecto, sabedoria e por sua bondade e humildade. Ou talvez um feitiço tenha sido lançado sobre mim, uma maldição do primeiro beijo naquela sala de cinema fria. Depois de tudo que conquistei nesse último ano o que menos esperava era cultivar uma paixão. Espero não me autosabotar o suficiente para não viver isso intensamente. Seja lá o que for.
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